Com os seus 20 milhões de habitantes, a Síria viu nascer a civilização há uns 12.000 anos. Damasco, a capital, é considerada a mais antiga cidade habitada do mundo e foi naquele país que nasceu o primeiro sistema alfabético. Ponto de encontro do Oriente com o Ocidente, na Síria cruzaram-se diversos impérios e diferentíssimas culturas, o que deu àquele povo uma personalidade vincada. Mas, nos 7.000 quilómetros que percorri, a maior surpresa foi a de verificar o amor sincero que os sírios dedicam ao cavalo, continuando uma tradição milenária. Fiquei com a impressão que se só houver uma tâmara para o almoço, ela ser-lhe-á dada.
Incontestavelmente, os sírios gostam apaixonadamente do Cavalo Árabe, que lhes retribui comportando-se como um cão fiel ao dono. Vi um cavaleiro apear-se e apontar para o chão, como quem diz “aguarda aí”. Afastou-se e foi conversar com os amigos. Um bom momento depois assobiou. O cavalo respondeu vindo alegremente a trote, ter com o amo.
Certo dia, no deserto, surgiu um pouco de vento que levantou alguma areia. Em poucos minutos todos os equídeos foram presenteados com um pano sobre as ventas, a fim de não inalarem qualquer poeira que os prejudicasse. Ao Sol, com temperaturas superiores a 50 graus, há sempre o cuidado de lhes cobrir o dorso. E de noite, dormem na tenda com a família. Evidentemente, não estamos a falar dos sultões mas sim do povo, para quem o cavalo é um meio de transporte, de trabalho e de orgulho.
Não vi o uso de esporas, nem varas. Na sua maioria os animais são montados sem nada na boca, obedecem à voz e recebem constantemente festas.
No norte, junto à fronteira com a Turquia e a uns 20 quilómetros do Iraque, na Tribo Aneze Kabajib, era dia de festa e ia haver uma corrida de cavalos. O chefe empunhava a espada e a assistência estava febril. Faltavam alguns minutos para a chegada da corrida. Sim, porque a partida não a vimos dado que foi dada algures nas areias do deserto, a 10 km da meta! E soube depois que para participarem na corrida, alguns concorrentes percorreram 100 km, evidentemente montados e sem água para beber!
E no entanto, veja-se a fotografia da chegada do equino vencedor, narinas abertas, todo estendido, os 4 membros longe do solo, num galope de cavalo ainda fresco!
O vencedor é ali considerado um herói, e tem mesmo a suprema honra de poder exibir com galhardia a espada do chefe da tribo, durante a chuva de aplausos que lhe são dirigidos.
Enfim, muito havia a dizer desta inesquecível viagem, em que encontrei um povo simpático que pode servir de exemplo na maneira de compreender e tratar os seus amigos cavalos. Voltaremos ao assunto brevemente, tanto mais que foi da Tribo Sh’ammars que Portugal importou os seus primeiros Cavalos Árabes.
In, EQUITAÇÃO Nº 69
2008.03.26
por Dr. Manuel Heleno
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sexta-feira, 28 de março de 2008
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